Um dos eixos centrais da pesquisa que fiz para minha dissertação de mestrado era o argumento de que a visão dominante sobre os efeitos da internet na sociedade pendularam de um polo de otimismo, para um polo de pessimismo. Essa visão otimista, que perdurou desde o início da popularização da web comercial, em meados dos anos 90, até o fim da década de 2010, uma transição que passa pela Primavera Árabe e atinge seu ápice com o escândalo da Cambridge Analytica.

Esse otimismo era, óbvio, mobilizado pelos capitalistas, investidores e proprietários das iniciativas digitais, mas também pela opinião pública especializada e por acadêmicos. Havia um certo consenso majoritário que apontava uma evolução civilizacional proporcionada pela rede mundial de computadores. Com a virada para o pessimismo, vimos também uma cisão desse consenso. Hoje, opinião pública e academia estão pessimistas e reticentes com quaisquer passos e novidades apresentados pela indústria da tecnologia. Ao mesmo tempo, os investidores e empresários demonstram um otimismo quase febril com qualquer novidade que supostamente mudará o mundo em alguns anos.

Ou seja, hoje está todo mundo com um pé atrás sobre cripto-bugingangas, inteligências artificiais, carros autônomos e coisas do tipo. Só os techbros e seus cada vez mais segregados seguidores demonstram algum tipo de otimismo – otimismo esse muitas vezes relacionado a visões de mundo reacionárias e supremacistas. O pêndulo otimismo-pessimismo significou também uma transição de eixo político para o vale do silício, que abandonou descaradamente algum tipo de social-liberalismo representado pelo mainstream democarata estadunidense e abraçou com gosto o aceleracionismo reacionário que encontra afago no partido republicano trumpista.

Os únicos otimistas com o futuro da tecnologia hoje são os donos das empresas que lucram com esse otimismo. Todo o resto do planeta está com um olho no peixe e o outro no gato, consolidando uma luta de classes do mundo pós-digital.