Vida além do trabalho
Tem sido cada vez mais comum me ver às voltas com debates geracionais sobre o comportamento e a realação das pessoas com o mundo do trabalho. Não só na internet, mas mesmo la firma, ou com outros amigos, a pauta dos “mais jovens que não gostam mais de trabalhar” aparece na ordem do dia.
Eu acho a abordagem geracional razoável. No âmbito geral, na internet se usa muito a classificação da “geração Z”, que eu vou evitar aqui por motivos de: estamos no Brasil. Mas é compreensível que pessoas “mais maduras”, com idades 30+, percebam uma diferença de comportamento, comprometimento e entrega de pessoas mais jovens às dinâmicas do mundo do trabalho. Existem algumas coisas que me parecem factuais nessa dinâmica: de uma forma geral, vivemos um período de adolesência e juventude expandida (o famoso “os 30 são nos novos 20”); pessoas demorando mais para sair da casa dos pais, demorando mais para assumir mais condições de independência.
Entendo se fazer um júzio de valor dessa dinâmica: lembro dessa matéria que li na folha a alguns anos relatando uma “reunião de pais” numa universidade. Esse é o tipo de situação que me incomoda profundamente nesse zeitgeist, onde pais (de classe média pra cima) mantém uma condição de superproteção com os filhos e os impede de vivenciar as agrugras e riscos da independência num momento crucial da vida de qualquer pessoa que é o fim da adolescência e o início da vida adulta.
Ao mesmo tempo, não podemos ignorar que, para além de uma simples mudança cultural, onde adolescentes se recusam a crescer, nós vivemos desde os anos 2010 num contexto de neoliberalismo exacerbado, com uma crise do trabalho no mundo todo. É cada vez mais difícil para um jovem projetar uma carreira ou se imaginar construindo a sua independência socioeconomica através do trabalho num mundo em que as garantias trabalhistas estão cada vez mais escaças e os trabalhos cada vez mais precários.
Eu me lembro dos impactos causados pelo vídeo All Work All Play na minha bolha acadêmico-profissional, lá pelos idos de 2012. Parecia que apenas adicionar o propósito a um contexto de trabalho era o suficiente para – em um ambiente hiperconectado do mundo pós-internet – resolver a tensão entre vida pessoal e trabalho. Esse vídeo é mais um produto do tecno-otimismo que eu pesquisei na minha dissertação de mestrado e que naufragou nos últimos anos. Esse pensamento não mobilizou apenas as paletas mexicanas, cervejarias artesanais, cafés descolados, mas também os tobogãs e totós em escrítorios de empresas de tecnologia e influenciadores digitais vivendo de publicidades do jogo do tigrinho. O que parecia ser uma promessa utópico-libertária na verdade era uma radicalização neoliberal.
Eu sem dúvida vejo no mundo do trabalho inadequações de pessoas mais novas que não são só o “desencanto com o trabalho no capitalismo”, mas um traço de falta de noção, mesmo. O recorte de causos que o Chico Felitti fez no Instagram dele não me deixa mentir. Mas acho que não podemos usar isso para encarar esses jovens como uma “geração mimimi”, que não gosta de trabalhar, etc. Pelo contrário: acho que eles justamente estão tensionando o debate sobre uma série de comportamentos e culturas tóxicas que existem em ambientes de trabalho como um todo (seja no comércio, seja no escritório, seja na fábrica ou no campo) e que não devem mais ser tolerados, mas que nós, os 30+, de alguma forma naturalizamos. Digo, acho que todo mundo que assistiu The Office já se reconheceu em alguma daquelas situações constragendoras. Por mais que a série seja engraçada, não: isso não é legal.
O movimento “Vida Além do Trabalho” é provavelmente um dos acontecimentos mais importantes da esquerda brasileira nos últimos anos. É uma pauta simples, direta e absolutamente fundamental para a maioria esmagadora dos brasileiros: de camelôs e profissionais do mercado informal a executivos e colarinhos brancos, todos nós somos afetados por essa tensão, e, guardadas as devidas proporções, todo mundo sente que trabalha mais do que deveria. Digo que é um acontecimento da esquerda pois sabemos que, apesar de todos os pesares, a agenda de quem vende a própria força de trabalho é uma agenda da esquerda, mas essa é uma pauta que inclusive consegue suplantar a polarização atual da política brasileira: crentes, conservadores, maconheiros e professores, todos sofrem – e se sensibilizam – com a tensão entre vida e trabalho. O que os mais jovens (talvez os mais afetados nesse contexto de crise e falta de esperança sobre o futuro) estão fazendo é apenas colocar na mesa esse assunto que vem todo mundo jogando pra debaixo do tapete.
Veja bem: a discussão aqui nem é sobre não trabalhar (o que não seria ruim) nem sobre o fim do capitalismo (o que seria melhor ainda): é sobre uma relação mais justa e equiliberda entre o tempo que se vende para conseguir os insumos para viver e o tempo em que se vive de fato. O mundo do trabalho (aka capitalistas + estados) estão discutindo esse assunto a passos lentíssimos, pondo na mesa questões importantes para a economia como produtividade e ocupação da população. Uma série de países já aplica jornadas 4x3, e muitos trabalhadores enxergam no trabalho remoto ou nas modalidades híbridas alternativas para se aproximar desse equilíbrio.
A molecada está de fato precisando de algumas lições de comportamento coletivo, mas não podemos com isso ignorar que a Vida Além do Trabalho é uma demanda coletiva multidimensional e urgente.