Frequentemente faço a seguinte provocação, como forma de autodepreciação da minha atuação profissional: qual seria a utilidade da sua profissão durante um apocalipse zumbi? Convivo com alguns profissionais de áreas especialmente relevantes para o nosso corpo social: professores e pesquisadores, profissionais da saúde (enfermeiras, psicólogas), e mesmo advogados que, em funções públicas, acabam tendo atuação direta sobre o destino de muita gente. Comparar a relevância desse tipo de trabalho com criar identidades visuais para transmissões ao vivo na televisão faz com que definitivamente o meu trabalho pareça socialmente dispensável.

Já ouvi algumas defesas, de designers do nosso meio, dizendo algo como: “mas nós contribuímos para o lazer e o entretenimento das pessoas!”, e essa visão é tão correta como ingênua, já que ela também pode ser lida como “contribuímos para a alienação das pessoas e para a retroalimentação do capitalismo!”. A entremeação quase inevitável entre design e publicidade faz com que a nossa profissão seja a testa de ferro do capitalismo nos últimos 100 anos.

Mas essa provocação também é uma boa forma de propor uma crítica à maneira como designers encaram a própria atuação profissional. De fato, projetar placares para eventos esportivos é algo absolutamente fútil em um contexto catastrófico, assim como, sei lá, desenhar action figures ou animar vídeos institucionais sobre compliance para empresas. Contudo, essa é uma forma muito limitada de pensar as possibilidades de atuação de um designer. Essa é uma forma compreensível de encarar a própria atuação, já que ela é muito próxima do ofício, do fazer de fato, da prática do dia-a-dia. Mas existem uma série de outros aspectos, que são mais cognitivos e dão conta de campos mais amplos de atuação, que podem ser considerados como funções relevantes a serem cumpridas por designers em contextos calamitosos.

Um adendo importante é que existem uma série de iniciativas, dentro do campo do design, em busca de reposicionar a profissão em tempos de neoliberalismo. Aproximações com a antropologia, pensamento decolonial, design periférico, contra-hegemônico ou ativista, esse tipo de coisa. Mas, aqui, me refiro à aplicação de práticas, fazeres e ofícios que constituem uma compreensão comum do que é o design. Algo tipo: design gráfico, animação, computação gráfica, design de interfaces, esse tipo de coisa. Ao fazer essa lista intuo que as aplicações materiais, mais relacionadas ao design de produto, talvez sejam menos perecíveis ao apocalipse do que a comunicação visual.

Mas, se despirmos a comunicação visual de seus componentes tecnológicos (impressão gráfica ou pixels em telas digitais) e formos ao seu núcleo cognitivo, encontramos conceitos importantes em qualquer contexto, inclusive durante um apocalipse zumbi. E, no fim das contas, esses são os conceitos abstratos que encontrei no início do curso de Desenho Industrial na Esdi: estudos de percepção visual, cor e estruturas bidimensionais, meios e métodos de representação. É esse tipo de conceito que estrutura a comunicação visual, independente do seu suporte tecnológico: seja uma placa de madeira pintada à mão, seja um cartaz impresso em papel couché, seja um vídeo animado ou uma interface digital. Conceitos básicos como gestalt e percepção da cor são fundamentais em qualquer contexto de comunicação visual, especialmente durante um apocalipse zumbi.